O
Congresso em Foco teve acesso às faturas de TV fechada de três
deputados: Flaviano Melo (PMDB-AC), José Airton (PT-CE) e Renato Molling
(PP-RS). Eles contrataram pacotes especiais e ainda aderiram às ofertas
das operadoras, que preveem até a abertura do sinal dos chamados
“canais adultos”. Houve também compra de filmes e campeonatos de futebol
no sistema pay-per-view (pague para ver, em tradução livre). Obviamente, com mais custos para o contribuinte, que é quem de fato paga a conta.
O benefício vem por meio do chamado “cotão”, como é mais conhecida
a Ceap, verba multiuso destinada ao pagamento de inúmeras despesas,
principalmente passagens aéreas, combustíveis e aluguel de veículos.
Com essa cota, a Câmara e o Senado gastam por ano cerca de R$ 253 milhões. A verba varia de estado
para estado – deputados do Distrito Federal recebem R$ 27,9 mil; os de
Roraima, por exemplo, R$ 41,6 mil. A média dos gastos com o cotão na
Câmara é de R$ 35 mil mensais por deputado.
Sex Zone HD
O
valor, de R$ 279,60, sobe para R$ 299,60 com os itens opcionais. O
ponto, de acordo com a fatura, está localizado em Sapiranga (RS),
município da região metropolitana de Porto Alegre onde Renato mantém seu
escritório político.
Em
entrevista ao Congresso em Foco, Renato diz não ter ideia do que há em
seu serviço de TV por assinatura. “É um pacote que foi feito. Não sou
nem eu que faço. Fizemos essa assinatura para ficar por dentro das
notícias, dos programas de política. Acredito que não deva ter isso
[canais pornô, de futebol etc], porque o pacote que foi feito é o
mínimo. Mas não sei o que tem lá”, afirmou o deputado.
Renato
Molling disse que seu gabinete vai devolver à Câmara o que foi gasto com
canais extras em observância ao sistema de custeio da cota parlamentar.
“Estamos vendo como ressarcir aquilo que não pode ser feito. Agora, não
sei o [canal] que pode e o que não pode. Já orientei o pessoal para não
ter mais esse pacote. A gente olha notícia ou a parte cultural [dos
programas]. Foi um lapso, e estamos corrigindo para que nunca mais volte
a acontecer”, declarou o deputado, ressalvando que possui trajetória
política ilibada. “Sempre me elegi dentro do que é correto.”
Combo “full top”
Já
Flaviano Melo, também em seu segundo mandato, contratou o pacote mais
caro, também da Sky, com serviços complementares e ampla oferta em
transmissões de futebol – apenas este opcional custou, na fatura emitida
em 4 de junho deste ano, R$ 69,90. Referente ao período entre 16 de
junho e 15 de julho, o pacote escolhido pelo deputado é o “Combo Sky
HDTV Full Top”, que dá direito a três campeonatos de futebol. O valor da
fatura é de R$ 422,35, com “serviços do mês” em R$ 432,35.
Mas
bastou uma ligação à Sky para saber que, no descritivo da fatura
“Opcional 1 + Opcional 2″, o que se pede a mais é justamente o acesso a
determinados filmes adultos, à livre escolha do usuário. O pedido
especial foi feito entre os dias 16 de junho e 15 de julho, e custou R$
42,90 a mais na conta final.
À
reportagem, Flaviano não respondeu se foi ele quem pediu o filme adulto.
Confrontado com a possibilidade de alguém de seu gabinete ou de sua
convivência pessoal ter pedido o serviço extra, disse que tomaria
providências para descobrir. Ele pediu desculpas à sociedade pelos
excessos cometidos na contratação do pacote de TV fechada. Para
Flaviano, a questão já foi resolvida.
“Já
ressarci isso. Pedi à Câmara para me informar o valor que foi gasto com
isso [canais extras]. Foi um erro meu? Foi. Mas foi um erro
involuntário. Quando me alertaram, vi e corrigi. Nem estão debitando
mais [na conta da Sky]”, declarou o peemedebista.
Dizendo
ter havido confusão no instante em que o serviço foi instalado, o
peemedebista admitiu que os canais estavam à disposição tanto na Câmara
quanto em sua casa. E na mais vasta oferta. “Tem no meu escritório e tem
em casa. Mas foi esse rolo todo, eles [instaladores] inverteram e
colocaram também na minha casa. Está tudo [canais] lá, deve ter de tudo.
Quando você compra esse pacote, compra tudo. Dei bobeira. Mas peço
desculpa e já ressarci o pagamento. Estamos sujeitos a esses erros”,
completou Flaviano.
Conexão Papicu
Já o
deputado José Airton consumiu R$ 383 em TV a cabo, segundo a fatura
emitida em 25 de junho, com vencimento em 7 de julho. Ao todo, no
período entre 7 de julho e 6 de agosto, os “serviços do mês” totalizaram
R$ 406,90 no pacote descrito como “Combos New Sky HDTV Super 2011 – M”,
que custou R$ 299,90. Com o pacote opcional de futebol, esse valor foi
acrescido de R$ 69,90. A fatura foi endereçada à Rua Riachuelo, 760, no
bairro tradicional de Papicu, em Fortaleza (CE).
Procurado
pela reportagem, tanto por e-mail quanto pelo telefone de seu gabinete
em Brasília, José Airton não foi encontrado. O Congresso em Foco mantém o
espaço aberto para que o deputado se manifeste sobre o assunto a
qualquer momento.
Cotão
A Câmara e
o Senado fazem análise apenas dos aspectos relativos à regularidade
fiscal e contábil das prestações de contas dos parlamentares para
autorizar o ressarcimento das despesas. Os técnicos examinam apenas se o
serviço contratado é contemplado pelo cotão.
No Ato da
Mesa Diretora nº 43, que institucionalizou a Ceap em junho de 2009,
registra-se que a verba é “destinada a custear gastos exclusivamente
vinculados ao exercício da atividade parlamentar”. Entre as descrições
de serviços e produtos designados como necessários a tal atividade está a
assinatura de TV a cabo “ou similar”, sem restrições de canal ou tipo
de programação. Os valores são pagos aos congressistas na forma de
reembolso mediante apresentação de comprovantes de pagamento.
“Não é
pelo valor em si que a gente deve fiscalizar [o uso do dinheiro
público], mas pelo ato em si. Porque quem mexe com um valor pequeno sem
responsabilidade pode, também, não ter responsabilidade para lidar com
valores altos de dinheiro público. Essa atitude de fiscalizar, de
cobrar, tem de ser independente do valor. Cada cidadão brasileiro tem a
obrigação, até, de ser um fiscal, e cobrar dos gestores públicos uma
posição mais coerente, mais correta para lidar com o dinheiro público”,
disse à reportagem o ativista digital Lúcio Big, que se dedica a
analisar como os congressistas gastam o cotão e descobriu os gastos com a
TV por assinatura.
Com Mídia
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